Festival Sonora Brasil leva turnê de música afro-indígena para 15 estados em 2025

A música afro-indígena ganha destaque nacional com a 28ª edição do Festival Sonora Brasil. O evento, promovido pelo Sesc, organizará uma turnê nacional que percorrerá 15 estados brasileiros. O projeto valoriza expressões musicais ancestrais e contemporâneas dessas comunidades.

O lançamento oficial acontecerá em junho, na cidade de Santarém, no Pará. As apresentações seguem até dezembro de 2025. Chama atenção que a escolha de Santarém não é casual — a região amazônica concentra importante diversidade de povos originários.

Ancestralidade encontra contemporaneidade

O músico afro-indígena Gean Ramos Pankararu representa essa ponte entre tradição e modernidade. Natural de Pernambuco, ele conecta ancestralidades indígena e negra em seu trabalho artístico. "Recebo esse convite com muita responsabilidade para levar nosso trabalho a lugares ainda mais distantes", declarou à Agência Brasil.

Sua trajetória começou na infância, no território Pankararu. Localizado nos municípios de Petrolândia, Jatobá e Tacaratu, o sertão pernambucano moldou sua identidade musical. A música afro-indígena fluía naturalmente em sua casa — a mãe cantava, o pai tocava violão e cavaquinho.

Nascido em 1980, Gean migrou para o interior paulista para trabalhar em plantações. Mesmo distante de casa, manteve os estudos musicais. Chegou a se apresentar em Brasília, Rio de Janeiro e João Pessoa. Mas o retorno ao território, em 2008, marcou uma guinada definitiva.

"Desde 2008, eu retorno ao território e aqui começa outra história", relembra. "É escrever a partir da minha vivência, com a minha cultura e minha tradição." O fato é que essa reconexão fortaleceu sua identidade artística.

Resistência através da arte

Por que a música afro-indígena representa resistência? Gean explica que suas obras carregam histórias de luta dos povos originários. "A música é um portal muito grande na minha vida e na história do meu povo", afirma. "É uma relação espiritual que parte da conexão com a terra e com a natureza."

O artista enxerga a música como ferramenta de conscientização. Suas composições constroem bases para futuras gerações. Na prática, cada canção funciona como instrumento de luta e resistência cultural.

"A música mais antiga que a gente tem nesse país é a música indígena", ressalta. Essa afirmação destaca a necessidade urgente de valorização dessas manifestações culturais. Não à toa, o movimento de visibilização de artistas indígenas ganhou força nos anos 2000.

Segundo Gean, o mercado para artistas indígenas praticamente inexistia no início de sua carreira. "Eu sempre compus aquilo que os meus olhos estavam vendo", conta. "Com estilo na linha da música popular brasileira, sempre tive essa relação muito forte com o território, mas não havia um mercado para artistas indígenas."

Diversidade em movimento

O Festival Sonora Brasil completa 28 anos de história em 2025. Criado em 1998, o projeto promove a difusão da música e manifestações culturais brasileiras. Leonardo Minervini, gerente interino de Cultura do Departamento Nacional do Sesc, explica a filosofia do evento.

"É um projeto que tem como foco a formação de ouvintes musicais", destaca Minervini. O objetivo é apresentar ao público "conhecimento da sua própria riqueza e diversidade cultural". Cada artista ou grupo realizará entre 30 e 40 apresentações ao longo do ano.

O projeto se adapta constantemente às demandas culturais brasileiras. "É um projeto muito dinâmico, muito vivo", observa o gestor. A organização trabalha para garantir representatividade cultural em cada edição. Soma-se a isso a busca por novidades da cena musical nacional.

Grupos em destaque

Suraras do Tapajós, do Pará, representa marco histórico. O grupo é pioneiro como primeira formação de carimbó exclusivamente feminina e indígena do Brasil. Seu repertório autoral celebra a natureza, força feminina e ancestralidade através da música afro-indígena.

O coletivo baiano Cabokaji propõe fusão inovadora. Une referências indígenas e afro-brasileiras a ritmos eletrônicos. Suas performances envolvem música, corpo e elementos rituais. O trabalho referencia comunidades como Xukuru-Kariri, de Alagoas, e Fulni-ô, de Pernambuco.

Já o Nderé Oblé reúne talentos do Rio Grande do Sul, Distrito Federal e Costa do Marfim. A proposta cria pontes entre ancestralidade e futuro. Utilizam música, palavra e corpo dentro do circuito de música afro-indígena contemporânea.

Minervini destaca a importância histórica dessa matriz musical. "Há um atravessamento histórico que aborda temas como territórios, crenças, modos de vida", explica. Essas manifestações se entrelaçam com matrizes africanas na formação cultural brasileira.

Legado em construção

O biênio 2024-2025 do Festival Sonora Brasil apresentou dez combinações de grupos e artistas. O tema "Encontros, Tempos e Territórios" gerou série documental produzida pelo SescTV. Os episódios estão disponíveis gratuitamente no Sesc Digital.

Essa 28ª edição representa marco significativo para a música afro-indígena brasileira. O festival não apenas promove entretenimento, mas constrói consciência sobre nossa diversidade cultural. Através dessas turnês, tradições ancestrais encontram novos públicos e garantem continuidade para futuras gerações, consolidando a importância dessas expressões artísticas no cenário musical nacional contemporâneo.